O que os levantamentos medem
O relatório da Nozy, em capítulo assinado pelo Mapa dos Festivais, registra 364 festivais realizados em 2024, ante 298 em 2023. O universo reúne eventos cadastrados na plataforma e não cobre todos os festivais brasileiros. Os números mostram expansão nesse cadastro, sem oferecer um censo nacional. A contagem de eventos também não informa, sozinha, quantas pessoas participaram, quanto foi gasto ou como o dinheiro se distribuiu entre artistas, produtores e fornecedores.
- Universos de comparação: Cada indicador tem universo e período próprios. Essas diferenças orientam a comparação.
O informativo SIIC 2011–2022 do IBGE oferece um contexto mais amplo: em 2021, havia 387.597 organizações culturais formalmente constituídas, 3,1% a mais que em 2011. Sua participação no total do Cadastro Central de Empresas caiu de 7,3% para 6,7%. O recorte reúne diversas atividades culturais e inclui empresas, órgãos públicos e entidades sem fins lucrativos. Essa evolução não pode ser atribuída integralmente à música ou aos shows.
A página Transparência 2024 do Ecad informa que a quantidade de shows e eventos captados e licenciados passou de 63 mil em 2023 para 70 mil em 2024, alta de 11%. Esse registro ajuda a observar a execução pública musical, mas tem escopo próprio. Inclui shows e outros eventos sujeitos ao acompanhamento da entidade, enquanto o cadastro do Mapa dos Festivais trata de festivais. Somar as duas contagens produziria um total sem significado estatístico.
Receitas, trabalho e economia local
No balanço publicado em abril de 2025, o Ecad informou alta de 20% na arrecadação do segmento Shows e Eventos em 2024. O resultado se refere a direitos autorais de execução pública, não à bilheteria total dos espetáculos. A entidade também registrou R$ 1,5 bilhão distribuído no conjunto de seus segmentos, contemplando mais de 345 mil titulares. Esse montante envolve compositores, intérpretes, músicos, editores e produtores fonográficos. Portanto, não permite calcular o rendimento típico de um músico de palco nem concluir que os shows foram a maior fonte de renda de todos os artistas brasileiros. Os agregados descrevem fluxos distintos dentro da cadeia musical.
Na análise econômica de um festival, receita e resultado precisam ser separados. A bilheteria e os patrocínios podem financiar cachês, montagem, som, iluminação, transporte e outras despesas. O valor recebido pelo organizador não corresponde ao lucro final, e a remuneração de um artista depende de seu contrato. Da mesma forma, gastos de visitantes em hotéis e restaurantes pertencem a outro recorte: o movimento gerado no destino, sujeito a método de estimação próprio.
- Festivais e abrangência: O cadastro de festivais ajuda a acompanhar o circuito, com cobertura nacional incompleta.
- Direitos e remuneração: Repasses autorais, cachês e lucro do produtor são medidas diferentes de atividade econômica.
- Cultura e seus recortes: Os indicadores culturais do IBGE abrangem segmentos que vão além da música ao vivo.
O mesmo quadro do IBGE registra R$ 83,3 bilhões em salários e outras remunerações nas organizações culturais em 2021, com salário médio mensal de cerca de R$ 4.135. São dados desse universo formal e desse ano, anteriores ao circuito de 2024 aqui analisado. Usá-los como salário dos músicos ou como massa de cachês apagaria diferenças entre atividades, vínculos e formas de trabalho. A situação de profissionais independentes exige informação específica.
O acesso do público é outra dimensão da economia dos eventos. O comparativo do Mapa dos Festivais registra 76 festivais gratuitos em 2024, ante 32 em 2023, dentro da base cadastrada. A gratuidade se refere ao ingresso; o deslocamento e a permanência ainda podem gerar despesas. Para avaliar quem consegue participar, seria necessário conhecer também localização, transporte, acessibilidade e perfil dos frequentadores, sem deduzir inclusão apenas do preço de entrada.
Como análise editorial, um balanço útil para cidades e produtores deveria combinar receitas, custos, condições de trabalho e acesso cultural. Contratações locais, duração dos postos e pagamentos efetivos ajudariam a avaliar benefícios que a contagem de eventos não revela. Para o turismo, convém distinguir a previsão de gastos do resultado apurado depois do espetáculo e explicar a base de comparação. Essas perguntas não demonstram, por si, que um festival trouxe ganhos ou prejuízos à cidade: indicam o que precisa ser medido. O crescimento observado em 2024 justifica acompanhar o circuito, sem prometer continuidade automática ou transformar projeções em fatos consumados.
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